HSG ou HyCoSy? Como a imagem define o tratamento da doença tubária
Postado em: 17/06/2026

A dúvida entre HSG ou HyCoSy aparece com frequência quando a paciente está investigando trompas obstruídas, hidrossalpinge ou infertilidade tubária.
Os dois exames podem avaliar a passagem pelas tubas uterinas, mas nem sempre respondem às mesmas perguntas com a mesma riqueza de detalhes.
A HSG, ou histerossalpingografia, é um exame realizado há mais de 100 anos, mas continua sendo excelente para avaliar a perviedade das tubas uterinas, com capacidade diagnóstica semelhante ao HyCoSy.
A vantagem do HyCoSy está no uso de contraste de microbolhas, com menor risco de reação alérgica, ausência de radiação ionizante e capacidade de avaliar outras condições ao mesmo tempo, já que o exame é realizado pela ultrassonografia transvaginal.
O ponto-chave é este: o melhor exame não é o “mais moderno” nem o “mais tradicional”. É o que esclarece se a alteração tubária é proximal, distal, funcional ou destrutiva.
É esse nível de detalhe que separa confirmação do achado, hidrotubação, canulação tubária e cirurgia restauradora ou ablativa.
HSG ou HyCoSy: qual a diferença?
A HSG e o HyCoSy respondem à pergunta principal sobre passagem tubária, mas fazem isso por métodos diferentes.
Método
Na HSG, a avaliação é feita por raio X ou fluoroscopia com contraste iodado.
No HyCoSy, a avaliação é feita por ultrassom transvaginal com contraste, em uma análise dinâmica.
Na prática, os dois exames podem mostrar se há passagem pelas trompas. A diferença está no tipo de informação complementar que cada um oferece.
Ponto forte da HSG
A HSG mostra com clareza o contorno da cavidade uterina e o desenho radiográfico do lúmen tubário, especialmente em achados proximais e distais clássicos.
Ela ajuda a mapear o trajeto da tuba e ainda pode ser útil em situações em que o HyCoSy não está disponível ou quando há necessidade de documentar o exame para um médico que irá conduzir o tratamento em outro serviço.
Ponto forte do HyCoSy
O HyCoSy permite ver o fluxo do contraste em tempo real e correlacionar a tuba com útero, ovários e demais estruturas pélvicas.
Por ser integrado à ultrassonografia pélvica especializada, ele agrega contexto anatômico e funcional ao mesmo tempo.
Principal limitação da HSG
A HSG pode gerar falso positivo de obstrução proximal por espasmo e tem menor capacidade de avaliar aderências e segmentos da tuba após a oclusão.
Por isso, um exame alterado não deve ser automaticamente traduzido em tratamento definitivo.
Principal limitação do HyCoSy
O HyCoSy depende bastante da técnica e da experiência do médico executante. Também pode ser eventualmente limitado por posição tubária e intravasamento.
Por isso, a qualidade da interpretação é decisiva para que o exame realmente ajude no plano terapêutico.
Em muitas pacientes, qualquer um dos dois exames consegue responder se há ou não passagem tubária. Mas, quando o tratamento depende de decidir entre observação, procedimento endouterino, cirurgia restauradora ou exclusão de uma tuba gravemente doente, o laudo precisa ir além. Nesses casos, o HyCoSy costuma ser o melhor exame.
O que realmente muda a conduta?
Achado proximal: cuidado para não chamar de obstrução definitiva o que pode ser espasmo
No HSG, o segmento proximal é justamente o ponto em que mais acontecem falsos positivos. Espasmo do óstio tubário, tampão mucoso, posição do cateter e outros fatores técnicos podem simular obstrução fixa.
Em séries citadas pela ASRM, cerca de 60% das pacientes com bloqueio proximal no HSG mostraram perviedade quando o exame foi repetido, sem qualquer tratamento entre os exames.
Revisões recentes reforçam que a chamada obstrução proximal pode representar espasmo, pseudo-oclusão ou fibrose verdadeira, e cada uma dessas situações aponta para um caminho diferente.
Por isso, um bloqueio proximal isolado não é indicação automática de fertilização ou cirurgia.
Quando a imagem distal é favorável e a paciente quer preservar a chance de gestação natural, costuma fazer mais sentido confirmar o achado.
Dependendo do contexto, isso pode ocorrer com nova avaliação dirigida, HyCoSy multimodal, salpingografia seletiva ou canulação tubária histeroscópica.
Se o óstio é vencido com facilidade, o raciocínio tende para obstrução funcional ou reversível. Se a canulação falha mesmo com técnica adequada e a anatomia distal está preservada, passa a existir maior suspeita de obstrução proximal verdadeira.
Nesse cenário, a conduta muda e pode incluir microcirurgia em casos selecionados, sempre ponderando idade, tempo de infertilidade, fator masculino e reserva ovariana.
Isso vale ainda mais nos achados unilaterais sem anormalidade distal, nos quais nem sempre existe necessidade de intervenção.

Passagem lentificada: a imagem ajuda a evitar excesso de tratamento
Nem toda alteração tubária é uma tuba ocluída. Às vezes o contraste passa, mas com lentificação, drenagem tardia, pequeno acúmulo distal ou sinais indiretos de aderências finas.
Esse padrão pode representar hipomotilidade, doença fimbrial inicial ou aderências peritubárias leves. Nessa faixa intermediária, a função do exame é separar o que merece observação do que merece intervenção guiada.
É justamente aqui que exames integrados ao ultrassom especializado podem ser úteis: não apenas para confirmar passagem, mas para correlacionar a tuba com ovário, hidrossalpinge, cavidade uterina e doença pélvica associada.
Em casos selecionados, a hidrotubação pode ser discutida como recurso diagnóstico-terapêutico. Porém, a indicação depende da imagem, não do desejo de “desentupir a trompa” a qualquer custo.
Fazer procedimento sem definir o tipo de alteração aumenta o risco de tratar de forma cega aquilo que, na verdade, exigia confirmação, histeroscopia ou cirurgia.
Doença distal: quando a imagem realmente muda a cirurgia
Quando o problema está na porção distal da tuba, a conduta quase nunca depende apenas do rótulo “hidrossalpinge” ou “fimbrial”. O que muda o tratamento é a qualidade da tuba.
Pacientes com aderências finas, dilatação discreta, parede ainda maleável e mucosa aparentemente preservada entram em uma faixa de melhor prognóstico para cirurgia restauradora.
Nesses casos, a imagem direciona para fimbrioplastia, neossalpingostomia e, quando o principal problema está fora da tuba, salpingo-ovariolise ou adesiólise peritubária.
Em contrapartida, tuba muito dilatada, com parede espessa, fibrose, mucosa pobre e aderências densas aponta para mau prognóstico de reconstrução.
Nessa situação, insistir em preservar uma tuba gravemente doente pode significar mais cirurgia, mais risco de gestação ectópica e ausência de benefício com o tratamento.
Quando a doença é unilateral e a tuba contralateral é realmente boa, pode ser mais racional discutir salpingectomia unilateral da tuba doente do que submeter a paciente a uma tentativa reconstrutiva de baixa chance.
O objetivo não é aumentar a chance de gestação, pois uma tuba com hidrossalpinge pode atrapalhar a gestação proveniente da outra tuba.
Aderências e endometriose: o problema às vezes é mais externo do que intraluminal
A HSG pode sugerir alteração peritoneal pelo padrão de derrame loculado ou escoamento anormal, mas tem capacidade limitada para identificar aderências abdominais com precisão.
Já o HyCoSy, quando associado à ultrassonografia transvaginal especializada, ajuda a correlacionar tuba, ovário, hidrossalpinge, aderências e sinais de doença pélvica associada.
Nessas pacientes, o tratamento raramente é apenas “abrir a tuba”. Muitas vezes, o verdadeiro alvo é restaurar a relação anatômica entre fímbrias e ovário, o que muda totalmente a proposta cirúrgica.
Por isso, quando há suspeita de aderências ou endometriose, vale integrar o raciocínio com um ultrassom transvaginal especializado.
Em alguns casos, a imagem mostra que o problema principal não é a luz tubária, e sim o aprisionamento da tuba na pelve. Nessa situação, a conduta tende mais para cirurgia de restauração anatômica do que para procedimentos apenas intraluminais.
Uma matriz prática: qual padrão de imagem costuma levar a qual próximo passo?
Perviedade bilateral, sem dilatação relevante
Quando há perviedade bilateral sem dilatação relevante, o fator tubário importante fica menos provável.
Em geral, a prioridade é seguir a investigação global do casal, sem intervenção tubária imediata.
Obstrução proximal unilateral isolada
Esse padrão pode representar espasmo ou pseudo-oclusão.
O próximo passo costuma ser confirmar o achado antes de intervir. Muitas vezes, não há indicação imediata de procedimento.
Obstrução proximal bilateral persistente, com distal preservado
Esse padrão aumenta a suspeita de doença proximal verdadeira.
Nesse caso, pode fazer sentido discutir canulação tubária histeroscópica. A microcirurgia entra apenas em casos muito selecionados.
Passagem lentificada, drenagem tardia e aderências finas
Esse padrão pode indicar alteração funcional ou doença distal leve.
O próximo passo é correlacionar com ultrassom especializado. Em casos selecionados, pode haver discussão sobre hidrotubação ou avaliação cirúrgica dirigida.
Fimbrial phimosis ou doença distal leve com tuba preservável
Quando há doença distal leve, com tuba preservável, o prognóstico de reconstrução costuma ser melhor.
A conduta pode envolver fimbrioplastia, neossalpingostomia e/ou adesiólise, conforme anatomia e demais fatores de fertilidade.
Hidrossalpinge importante, fibrose e aderências densas
Esse padrão sugere mau prognóstico para restauração funcional.
Nesses casos, pode ser mais adequado discutir salpingectomia unilateral da tuba doente ou outro plano individualizado, conforme a condição da tuba contralateral.
Essa matriz não substitui a consulta. A mesma imagem pode ter pesos diferentes conforme idade, reserva ovariana, tempo de infertilidade, fator masculino, dor pélvica, história de infecção, endometriose e número de filhos desejados.

Perguntas frequentes
HSG e HyCoSy mostram a mesma coisa?
Não exatamente. Para perviedade tubária, diretrizes consideram os dois exames comparáveis.
O que muda é o tipo de informação complementar que cada um oferece e, por consequência, o quanto cada método ajuda no planejamento do tratamento.
Um laudo de obstrução proximal no HSG significa que a trompa está definitivamente fechada?
Não. A porção proximal é o local em que mais ocorrem falsos positivos por espasmo, tampão mucoso e fatores técnicos.
Em vez de tratar um laudo isolado, o mais prudente costuma ser confirmar o achado quando o contexto clínico permite.
HyCoSy substitui HSG em todas as pacientes?
Também não.
A HyCoSy agrega muito quando se deseja uma avaliação dinâmica, sem radiação, integrada ao ultrassom pélvico.
A HSG, porém, continua útil em alguns cenários.
Se apenas uma trompa está alterada, sempre é preciso tratar?
Não necessariamente.
Em obstrução proximal unilateral sem alteração distal, por exemplo, pode não haver necessidade de intervenção imediata.
A decisão depende do restante da investigação e da qualidade da trompa contralateral.
Quando a imagem evita decisões precipitadas
A resposta para “HSG ou HyCoSy?” não deveria ser automática. Os dois exames podem avaliar a perviedade tubária, mas a decisão terapêutica depende do padrão de imagem e do contexto clínico.
Quando a alteração é proximal, o desafio é diferenciar espasmo de obstrução verdadeira. Quando é distal, o ponto central é saber se ainda existe tuba restaurável ou se a anatomia já aponta para mau prognóstico.
Quando há aderências ou endometriose, o problema pode estar menos na luz da tuba e mais na sua relação com o restante da pelve.
Se você já tem um HSG ou uma HyCoSy e quer entender se o próximo passo é apenas acompanhar, confirmar o achado, discutir hidrotubação, considerar canulação tubária histeroscópica ou avaliar cirurgias e procedimentos para restaurar a anatomia tubária, o mais importante é revisar a imagem dentro de uma avaliação especializada.
Dr. Fernando Guastella
CRM-SP: 112.601
RQE: 83937 - Ginecologia e Obstetrícia
RQE: 839371 - Endoscopia Ginecológica (Cirurgias Minimamente Invasivas)
RQE: 58641 - Diagnóstico por Imagem
